Paulo Navarro | sábado, 1º de setembro de 2018

Foto: Ada Penna


O menino no Espelho

André W. Penna é um grande artista da pintura, arquitetura e vida! Mente intensa, efervescente, brilhante. Ótima companhia para rir e falar sério. Suas estradas e praias são longas, mesmo sem ter planos para 2039. A arte longa de André faz parte, de hoje ao final de setembro, do Circuito das Artes, com uma Exposição Retrospectiva, na Galeria Cícero Mafra, no Santa Lúcia. Deleitem-se!


Nunca é tarde ou cedo para uma retrospectiva?

Nunca é tarde, sempre é tarde demais. Como o coelho de Alice (no País das Maravilhas, n.d.r.) “tenho pressa, tenho pressa”. A retrospectiva pressupõe um olhar para trás do aprendizado, revendo registros deste domínio nesta viagem pela pintura, agora com este caráter temporal.

O que veremos na exposição?

Trabalhos abstratos. Ora de um cromatismo intenso em campos informais, ora o encerramento geométrico da composição, exercícios de percepção nesta linguagem não figurada. Serão cerca de 40 telas de grandes formatos, em acrílica, e 100 trabalhos em papel resinado, de alta gramatura, dispostos em mesas para manuseio, como livros na horizontal, livres de molduras.

O que faltou? Ou melhor, o que te faz falta, sem pênalti?

O que sempre falta mais: o silêncio, esta graça que me conduz a pintar, estar em paz.

O que há de arquitetura na tua pintura e vice-versa? Linhas, curvas, geometria, veladuras...

Isso está tudo misturado, sempre neste exercício de expressar percepções, uma planar e outra em três dimensões variando níveis de permanência e comprometimento.

Arte é oxigênio, solução, terapia, remédio?

Tenho medo de espelhos e labirintos, rsrsrsrs, mas gosto muito disso: “A arte é o espelho do espírito do homem” (Marlowe). Sempre buscando imagens destas percepções, uma linguagem sensível, em um processo catártico que conduz a estes silêncios, então terapia e solução.

O Brasil, como a “última flor do Lácio, inculta e bela”, que não lê, sabe pelo menos ver?

Ver difere de olhar. A questão da possibilidade de acesso a uma contemplação artística das gentes em luta pela sobrevivência é difícil de afirmar, mas existe em cada olhar um ser humano analfabeto ou não que em um momento ou outro possa ver.

Quais as cores do Brasil hoje, as dos Três Tristes Tigres ou dos 50 tons de cinza?

Sempre a luz dos trópicos (Tristes Trópicos) azuis e laranjas, vermelhos profundos e os cinzas aliados ao negros da noite política brasileira.

Com que artista ou arquiteto você ilustraria uma nota de R$ 100?

Ilustrações são figuras imediatas. Prefiro pensar uma nota sem rosto, transparente, como o apagar na idade, a memória, o esquecimento, que talvez venha justificar esta retrospectiva.

O que espera de 2019 ou 2039? Godot ou a banda num bonde chamado desejo?

Para o ano que vem, esperar sem esperar pensando a possibilidade de conquistar a liberdade de ir e vir, em uma realidade melhor de justiça social. Para 2039, ter cessado de existir.