Sábado, 5 de setembro de 2026


Abrindo o capítulo "Retratos da Vida", Lúcia Helena Aguiar. Foto: Edy Fernandes

A Cinza das Horas

O poeta pernambucano, Manuel Bandeira, foi tuberculoso e sempre achou que morreria jovem. Daí a confissão, no verso de um de seus poemas mais famosos, “Pneumotórax”, lamentando e lembrando o “luto pelas expectativas perdidas, os sonhos interrompidos e o tempo roubado pela doença”: “a vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Morreu aos 82 anos, de hemorragia gástrica.

Cinza em 50 Tons

Um exemplo melhor para o tema de hoje, é o playboy brasileiro, nascido em Petrópolis (RJ), Jorginho Guinle, um herdeiro milionário, famoso por suas conquistas amorosas e falência financeira. Guinle planejou gastar sua imensa herança - US$ 100 milhões - porque acreditava que ia viver até por volta dos 75 anos. Viveu mais do que esperava e faleceu aos 88 anos, quando o dinheiro já havia acabado totalmente.

Cinza em Brasas

Assim, eis o tema de hoje: aproveite ao máximo sua vida, seu dinheiro e morra zerado. Reflitamos sobre o livro que popularizou a ideia de gastar todo o seu dinheiro e não acumular patrimônio, “Morra sem Nada” (Die with Zero), do investidor e empreendedor Bill Perkins. Uma visão diferente da educação financeira tradicional.

Brasas Adormecidas

O autor defende que o objetivo da vida não é acumular o máximo de dinheiro possível para deixar guardado ou passar a velhice sem usá-lo. O dinheiro deve ser visto como uma ferramenta para comprar memórias e vivências no momento certo da vida. Na velhice, a pessoa tem dinheiro, mas perde a saúde e a disposição para realizar grandes sonhos. Por isso, gastar em etapas mais jovens traria mais felicidade.


Mostrando que toda vida vale ser vivida, Luciana Mourão. Foto: Edy Fernandes

Adormecida e Desperta

O livro não prega a irresponsabilidade financeira total ou o endividamento, mas sim o planejamento para zerar o saldo acumulado (ou distribuí-lo em vida) exatamente quando a pessoa chega ao fim da sua trajetória, evitando sobrar dinheiro inutilizado. Inovador e provocativo, o guia ensina como aproveitar ao máximo o dinheiro em prol de experiências significativas.

Desperta e Alerta

Imagine se, no momento da sua morte, você percebesse que sempre trabalhou duro e economizou bastante dinheiro, esperando ansiosamente pela sonhada liberdade financeira da aposentadoria. É um cenário comum, afinal, quase todos crescemos ouvindo o sábio conselho da fábula de Esopo: não seja como a cigarra, que apenas brincava e aproveitava os dias.

Alerta e Paralisada

Seja como a formiga, que trabalhava com assiduidade para reservar ganhos para o futuro. Mas e se essa lição não estiver tão certa? Apesar de ser um bom poupador, talvez você não tenha percebido que desperdiçou o bem mais precioso de todos: sua vida. Perkins oferece um novo lado sobre como, e quando, devemos transformar economias em experiências, o verdadeiro “capital” que deveria ser nosso propósito.

Paralisada e Preparada

Para isso, conduz o leitor por uma espécie de balanço pessoal, ajudando a entender que adiar indefinidamente sonhos e desejos vai de encontro com a lógica de uma vida feliz. Perkins conta histórias sobre envelhecimento, dinheiro e a relação com a felicidade. Subvertendo a lógica da fábula de Esopo, “Morra sem Nada” explica por que usar nosso dinheiro em prol de “vida” faz tanto sentido diante de nosso tempo limitado.

Preparada e Surpreendida

Tá tudo muito muito bem, tá tudo muito bom, mas, assim como Bandeira economizou vida e Guinle torrou sua fortuna, pensando que morreriam “jovens”, e nós? Tem muita gente rica morrendo de várias doenças, com os “cofres cheios”. E tem mais! Como faz a pessoa que gasta tudo para morrer sem nada, mas antes de morrer, fica velho pobre e doente? Jorginho Guinle, por exemplo, morreu morando “de favor”, no Copacabana Palace!



A vida em anos dourados, com Márcia Hermeto. Foto: Edy Fernandes

Lança Perfume

*No mais, quem disse que a vida é justa? “Se quiser fazer Deus rir conte a ele seus planos”.

Realmente, é no mínimo cruel e idiota, trabalharmos como loucos, a vida inteira enquanto temos saúde e disposição.

Realmente é muito injusto ter dinheiro, situação, vida e familiares estáveis, mas não termos mais saúde para subir as escadas do metrô de Paris.

Não faz sentido almoçarmos a quilo, quando somos jovens e depois, com dinheiro, não podermos comer bem por causa de diabetes, colesterol e obesidade.

E aquela pessoa que é linda, saudável, elegante, rica, culta, aposentada ainda jovem, mas descobre que tem um câncer e vai morrer em um ano?

E quem guardou dinheiro a vida toda para deixar os filhos numa boa e envelhece sozinho e solitário?

Manuel Bandeira deveria ter vivido mais e pensado menos na morte, deveria talvez ter tido filhos ou buscado inspiração em longas viagens.

Jorginho Guinle viajou muito, aproveitou muito, teve as mulheres mais lindas do mundo, mas viveu o mais terrível drama, o de ter e perder tudo.

E vocês?