Sábado, 5 de abril de 2025
No maravilhoso mundo da juventude, Natália Leite. Foto: Edy Fernandes
Gene mortal
Quase dois meses depois das mortes do ator Gene Hackman, de sua esposa e de um dos cães do casal, em vez de luz e explicações, muito mistério sobre como e quando morreram. No entanto, num texto atribuído à escritora Sonia Zaghetto, temos outras reflexões bem mais profundas, como: “o que morre primeiro? O homem ou o mundo ao redor?”.
Gene imortal
Gene Hackman foi um grande ator. Mesmo feio para os padrões de Hollywood, foi uma estrela. Extremamente talentoso e versátil, ganhou fama, respeito e dinheiro. “Gene Hackman morreu antes de seu coração parar de bater. Teve fome. Teve sede. E ninguém veio”, escreveu Sonia Zaghetto, dia 9 de março.
Gene invisível
“E então o grande Gene Hackman, morreu. Não de doença, não de fome. Morreu de esquecimento. Qual a verdadeira morte? A do último suspiro ou a do instante em que ninguém percebe a sua falta? Gene Hackman morreu sozinho. Um dia, todos nós estaremos solitários no momento do encontro com o nosso destino final”.
Gene na ilha
“É inevitável. Mas para Gene a morte chegou de um jeito mais lento, mais esquecido e doloroso. Ninguém bateu à porta. Nenhum amigo ligou. Nenhum familiar estranhou a ausência. Betsy, sua esposa, morreu primeiro. Hantavírus. Uma doença rara, transmitida pelo pó das fezes de roedores”. Esta causa está sendo reavaliada e questionada.
No maravilhoso mundo da beleza, Ranizia Dessimone. Foto: Edy Fernandes
Na ilha com Betsy
“Pouco antes ela foi à farmácia e levou o cãozinho ao veterinário. Não sabia que aquelas eram suas horas finais. E então veio a febre, o cansaço, o nada. De repente, o fim. Sem aviso, sem tempo para despedidas e providências. Gene ficou sozinho, sem entender. Por sete longos dias, perambulou pela casa sem saber o que fazer, sem se lembrar de como agir”.
Na ilha, sozinho
“Aos 95 anos, o Alzheimer já havia apagado parte de sua memória e a capacidade de pedir ajuda. Talvez tenha chamado por Betsy. Mas isso não se soube ou saberá, porque ninguém estava lá. Ninguém veio. O que acontece quando um homem se torna invisível?”.
Sozinho e só
“O rosto duro, a voz grave, o talento bruto. Interpretou presidentes, assassinos, heróis. Foi duas vezes vencedor do Oscar, amado pelo público, respeitado pelos colegas. Mas o que isso significa quando se tem 95 anos e se está sozinho? Quando a memória se apagou, o corpo está fragilizado e os amados ausentes?”.
Só e só
“A fama é um engano que o tempo desfaz. O que resta quando o telefone para de tocar? Quando as pessoas presumem que você não quer ser incomodado? De que vale um nome célebre quando se está idoso, doente e só? A solidão não chega de repente. Ela começa no dia em que ninguém mais pergunta como você está”.
Só e sozinho
“No dia em que as pessoas supõem que você já tem tudo, que está bem. O esquecimento vem devagar. Constrói-se aos poucos, como uma casa onde ninguém entra. Gene – que não se dava ares de celebridade – buscou se distanciar de Hollywood”.
No maravilhoso mundo da saúde, Sofia Ephram. Foto: Edy Fernandes
Lança Perfume
“*Escolheu o isolamento, apostou que a esposa, trinta anos mais jovem, o assistiria até o final”.
“Acreditou que não precisava de um cuidador, enfermeiro ou outros empregados”.
Porém, a bênção converteu-se em armadilha. A casa grande ficou menor. O silêncio ficou maior”.
“Ninguém bateu. E o homem um dia visto por milhões, partiu sem que ninguém olhasse”.
“A solidão dos que vivem muito assusta. A velhice é um país estrangeiro e inóspito”.
“Poucos são os que ousam pensar no que acontecerá quando os dias se tornarem longos demais e as noites silenciosas em excesso”.
“Raros são os que tomam decisões conscientes para que a vida não se dissolva quando não houver mais reuniões, estreias, jantares, tapetes vermelhos, flashes e idas ao cinema”.
“Recolho em mim cada lição dessa tragédia: morrer é um caminho sem testemunhas”.
“A fama, uma ilusão que se desmancha na poeira; o sucesso, um eco que não se sustenta”.
“A vida é mutável e imprevisível. Ela nos surpreende em uma esquina qualquer, com a sua maleta transbordante de espantos”.
“No fim, somos casas sem luz se não há quem bata à porta”.