Sábado, 4 de julho de 2026


O florido, quente e nada desértico inverno de Daniele Moura. Foto: Edy Fernandes

Imensidão de areia

Em seu maravilhoso e invejável livro de memórias, “Quase Tudo” (2005), Danuza Leão (1933-2022), na página 145, escreve sobre um de seus temas favoritos: viagens pelo mundo: “Muitos anos mais tarde fizemos (ela e dois filhos) uma viagem maravilhosa para o Marrocos. Quando chegamos a Zagora, já quase no deserto, teríamos nos embrenhado pelas areias”.

Imensidão eterna

“E nos integrado a uma caravana qualquer, um pouco como no filme ‘O Céu que nos protege’, de Bertolucci, se não fosse (a filha) Pinky, que se mostrou a única com juízo no grupo. Voltamos cheios de tristeza, mas o deserto ainda me fascina, e um dia ainda vou me perder por lá”. Danuza foi muito feliz ao lembrar-se do filme de Bernardo Bertolucci, de 1990.

Eterna e infinita

Em o “Céu que nos protege”, os atores principais são John Malkovitch, Debra Winger e o deserto do Saara. O casal está em crise, resolvem muita coisa, mas “perdem tudo”. Lindo e filosófico filme onde o deserto é divã e professor: “não somos turistas, somos viajantes. A diferença é que o turista sempre tem data para voltar, o viajante nem sabe se voltará”.

Infinita e finda

O filme lembra-nos, com muita poesia e música, uma fatalidade que insistimos em ignorar, apesar da importância e da certeza, a morte: a gente nunca sabe qual o último por do sol que presenciamos ou a última taça que brindamos com os amigos. O Brasil, graças à Amazônia, não tem deserto, no máximo sertão e caatinga.

Finda e viva

Mas a América do sul tem vários, entre eles o da Patagônia e o mais seco do mundo, o Atacama (Chile/Peru) que, na parte chilena, já foi cenário do filme “007 - Quantum of Solace” (2008). Daí, a delícia de um programa dos mais originais, com a grife do Centro de Formação Artística e Tecnológica, do Palácio das Artes/Fundação Clóvis Salgado, “Atacama”.


Mesmo no "pretinho básico", o calor de Saara e Atacama, com Gabriela Mercadante. Foto: Edy Fernandes

Viva e criativa

“Atacama” é o espetáculo de formatura da turma da noite do Curso Técnico em Teatro. Em cartaz até dia 10, às 14h, amanhã e 20h nos demais dias, no Galpão 3 da Fundação Nacional de Artes - Funarte, Centro. Os ingressos são gratuitos e poderão ser retirados na bilheteria Funarte. Direção de Paulo Maffei e dramaturgia de Vinícius de Souza.

Criativa e original

A peça narra a trajetória de imigrantes que tiveram suas terras vendidas e buscam um novo território para viver, em uma jornada que os leva ao Atacama. Através de diferentes histórias, a obra aborda o modo de viver, o comportamento e as relações humanas diante de um cenário marcado por crises climáticas.

Original e capital

Feliz combinação de dramaturgia, iluminação, projeção, captação de imagem em tempo real e elementos de dança contemporânea. Agora, a parte mais original, logo, interessante. Um deserto de roupas! O Atacama também abriga um dos maiores depósitos de resíduos têxteis do planeta. Estima-se que mais de 40 mil toneladas de roupas descartadas por Estados Unidos, Europa e Ásia acabem como lixo na região todos os anos.


Ao contrário de areias escaldantes e "moda ao contrário", o exuberante verde de Lívia Esteves. Foto: Edy Fernandes

Lança-Perfume

*E é justamente dos montes de roupas descartadas que a peça encontra seu cenário físico e também sua camada dramatúrgica.

As vestimentas doadas não compõem apenas o ambiente, mas atravessam a encenação como símbolo e metáfora.

“De alguma forma, a linguagem da encenação e da dramaturgia textual está em torno da relação com essas roupas, que vão ganhando amplos significados ao longo do espetáculo”, afirma Paulo Maffei.

Para o elenco, 13 estudantes, a reta final de preparação envolve corpo e mente.

“Muitos de nós nunca estiveram em cartaz, então a preparação que estamos fazendo também é psicológica, além de física”, conta a atriz Stephanie Lorrane.

“Se a realidade se suspender, nem que seja por um instante, estarei feliz”, afirma Lorrane.

A atriz Sabrina Gleyce destaca que espera despertar no público os mesmos questionamentos que atravessaram o processo de criação e que percorrem o drama de toda a peça.

“Espero que as pessoas reflitam: são só roupas? Elas servem apenas para vestir, para nos proteger, para a estética?”.

Não! Roupas não são um deserto, nem apenas um oásis.