Sábado, 16 de maio de 2026


A vida é bela, para Izabella Oliveira e Letícia Ibrahim. Foto: Edy Fernandes

Lendas lendárias

“Dizem” que o poeta Manuel Bandeira nunca se casou ou teve filhos porque, tuberculoso, temia morrer jovem. Viveu 82 anos e deixou os famosos versos: “Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Já o playboy Jorginho Guinle, sem imaginar-se velho, torrou a fortuna da família e morreu aos 88 anos.

Lendárias imaginárias

São 10X0 para Guinle, concordam? Caixão não tem gaveta e ele gastou tudo em viagens pelo mundo, mulheres lindas, restaurantes e hotéis de luxo. Então, sobre desperdício de dinheiro ou de vida, na coluna de hoje, para nossa enorme coleção, “Lição de Vida”, mais um texto tão interessante quanto anônimo.

Imaginárias mangueiras

“Minha mãe cortava o frango, picava os ovos e passava manteiga no pão com a mesma faca. Na mesma tábua. E sabem o que aconteceu? Nada. Nunca uma só intoxicação alimentar. Todo domingo era frango com batata frita (ou macarronada). Não precisava de McDonald's. Eram nossas tradições. Simples. Mas preciosas”.

Manga com leite

“O lanche da escola ia num saquinho de pão. Sem lancheira térmica. Pão com manteiga e pedacinhos de chocolate. Nenhuma bactéria nos derrubou. A gente mergulhava em rio, lago, mar. Ninguém pagava piscina cheia de cloro. As praias nunca fechavam. E a gente nadava sem medo”.


A vida é doce, para Mariana Corrêa e Renata Moreira. Foto: Edy Fernandes

Almoço com piscina

“Na escola, educação física com tênis simples. Sem tecnologia de mil reais. A gente caía e levantava. E as quedas viravam histórias. Fez algo errado? Castigo. Chinelada. Cinto da calça do pai: disciplina. E a gente cresceu respeitando regras e honrando os mais velhos. Éramos às vezes cinquenta por sala. E mesmo assim, todo mundo aprendeu a ler, escrever e fazer conta”.

Piscina funda

“Tabuada? A gente sabia de cor. Dever de casa? Fazia à noite, na mesa da cozinha. E escrevíamos com gramática perfeita, sem erro de português. No meio do ano, festa junina. Bolo feito pelas mães. Rifa. Quadro de honra com os nomes dos melhores alunos. Quanto orgulho! Não importava de onde a gente vinha”.

Vida profunda

“Cantávamos o hino nacional e hasteávamos a bandeira com respeito e orgulho. Desfilávamos no dia 7 de Setembro. E ninguém achava opressão. A gente brincava na rua até os pais chamarem. E eles sabiam onde a gente tava. Todo mundo se conhecia, cuidava. Dava pra andar na rua de noite sem medo. Picada de abelha? Nada de hospital ou antibiótico: iodo, alho ou vinagre”.

Profunda brincadeira

“Briga na escola? Resolvia no tapa. Nunca com faca, arma. Dia seguinte, a gente já tava jogando bola junto. E a gente não conhecia o termo ‘família disfuncional’. Resolvia as coisas naturalmente, sem terapia, remédio controlado. Só a vida. Simples. Verdadeira”.

Brincadeira verdadeira

“Como sobrevivemos? Por causa dessa simplicidade. Amo essa época. Sinto muito pelo que vocês perderam. Porque hoje: a faca tem que ser uma pra cada coisa. O lanche tem que ter marmita térmica. A criança não pode cair porque ‘vai traumatizar’. A disciplina virou abuso”.


A vida é leve, para Polly Gontijo e Marina Lenk. Foto: Edy Fernandes

Lança Perfume

“Cantar o hino brasileiro virou ‘doutrinação’. Brincar na rua, perigo, resolver no tapa, crime”.

“Com tanta proteção, as crianças ficaram frágeis, ansiosas, perdidas”.

“Porque trocamos simplicidade por paranoia. Liberdade por controle. Resiliência por fragilidade”.

“Agora, crianças que não sabem lidar com frustração. Adolescentes que não sabem escrever uma frase. Adultos que não sabem resolver conflito sem processar alguém”.

“Não era tudo perfeito, não romantizo a pobreza, nem defendo a violência. Mas perdemos a capacidade de ser simples, forte, gente”.

“Hoje temos mil informações. Mas nenhuma sabedoria. Mil redes sociais. Mas nenhuma conexão real. Mil terapias e nenhuma paz”.

“Olho pra trás e penso: A gente tinha nada. Mas tinha tudo. Tinha vizinho que cuidava. Tinha rua pra brincar. Tinha simplicidade pra ser feliz”.

“Hoje temos tudo. Mas parece que temos nada”.

“Essa é uma homenagem a quem cresceu com o simples. E sobreviveu. E virou gente de verdade. Não porque era melhor. Mas porque era real”.