Uma reflexão sobre a gula como pecado

Se há um pecado que interessa a quem gosta de comer ou beber, o da Gula é o objeto destas reflexões. Não podemos esquecer que a religião sempre teve o papel “regulador” dos vícios e da sociedade, a fim de organizar e doutrinar segundo sua perspectiva em cada época da evolução da humanidade.

Os hábitos por trás do alimento são questionados desde a Grécia Antiga. Para a doutrina Católica, alimentar-se é um ato normativo humano em que a única função é manter o corpo saudável, o excesso através da comida, bem como o prazer, são o resultado estimulado pelo pecado da Gula.

A palavra Gula, derivada de “goela” em latim, surge para frear o apetite desregrado, principalmente da nobreza abastada, mesmo na antiguidade, uma vez que entende-se por gula, não só o ato de comer, mas também o de beber, e (ou) de se embriagar-se, opondo ao ideal de moderação, ou o que Aristóteles consideraria como a virtude da temperança.

Então, porque a Igreja se incomodaria tanto com o fato do comer em demasia? Não seria algo prejudicial inteiramente do indivíduo que o comete?

A Igreja entende que a gula torna-se responsável por pecados bem mais graves, tal como o acaloramento dos sentidos que conduz o ser humano para a luxúria, uma vez que o excesso de carnes (principalmente) e molhos picantes, excitaria o corpo e o espírito levando quem come muito ou bebe de forma exagerada a cometer atos muito além da sua racionalidade.

Até mesmo a preguiça como consequência, era e é mal vista, uma vez que o comer demasiadamente causaria uma languidez dos sentidos e uma ociosidade, outrora condenada. Assim era imposto um regime rigoroso afim de evitar qualquer tipo de ameaça advinda da gula aos homens que viveram sob as regras da religião. Principalmente na Idade Média, Moderna e ainda início da Idade Contemporânea, a gula foi um pecado altamente condenável, em que se buscava criar um limite tênue entre o excesso e o bem comer.

Da origem da palavra gula, advém três subsequentes significados, que durante a história, acabam por designar coisas diferentes: Glutão, Gourmet, Gourmand, que são três acepções discordantes para uma mesma palavra. No Ocidente, gula remete a três sentidos correspondentes, durante três momentos históricos diferentes. O sentido mais antigo, de Glutão, designa os grandes comedores e os grandes bebedores, bem como todos os excessos representados pela palavra em latim goela, já Gourmand, seria o amante da boa mesa, e Gourmet, caracteriza-se pelo paladar refinado e por algum conhecimento sobre gastronomia.

Progressivamente nos séculos XVII e XVIII, que imporá o termo francês Gourmet, logo no auge do século XIX, já temos o conceito da “boa gula” formado e de certa maneira fomentado pela própria Igreja.

A visão dogmatizadora, dominadora e punitiva vinda por parte da Igreja, a qual utiliza de sua doutrina para “controlar” segmentos sociais e a redenção dos personagens que conseguem enfrentar o medo já arraigado em seu imaginário e vivenciam um momento único de compartilhamento, em que o alimento se torna a comida que alimenta o corpo e o espírito, criando um conceito “nouveau” e quebrando o estigma carregado pelo simples fato de comer bem deixando de lado rixas, problemas e a própria conduta religiosa para simplesmente saborear o bem comer, o trocar ideias, o experimentar. Aliás, “Não há pecado afora a estupidez” (Oscar Wilde)