Procurando fugir da mesmice

Primavera se instalando, e junto com as flores o calor clama por vinhos espumantes, brancos e rosados que refresquem nossa sede. Amigos pedem sugestões de vinhos brancos e procuro pensar em rótulos que fujam da mesmice. A maioria dos vinhos que tenho degustado, estão muito parecidos e poucos ficam na memória por seu caráter diferenciado.

A observação não é só minha. Boa parte dos amantes de vinho está dizendo que os vinhos estão iguais. Um Chardonnay do Cone Sul (Argentina e Chile) é muito parecido a um Chardonnay sul-africano, australiano, neozelandês e ou um californiano. O que parecia ser uma vantagem (ser tão bom quanto!) agora se torna defeito. Aliás, o berço de tudo foi a Califórnia, o que explica boa parte dessa história.

            Em 1976, na célebre prova de Paris, o crítico inglês Steven Spurrier, organizou um evento, no qual um grupo de conhecedores degustou às cegas vinhos franceses e californianos. O resultado desta prova é que os vinhos americanos ganharam dos franceses (nos brancos e nos tintos). O vinho tinto vencedor foi o Stag´s Leap Wine Cellars 73, que bateu bordeaux como Chateau Mouton-Rothschild 70, Chateau Montrose 70 e Chateau Haut-Brion 70, para citar apenas uma parte do time. Nos vinhos brancos, o californiano Chateau Montelena ficou em primeiro lugar, seguido do Mersault-Charmes 73, do produtor francês Roulot, e de dois outros chardonnays americanos, o Chalone Vineyard 74 e o Spring Mountain Vineyard 73. Para conhecer em detalhe esta prova, leia o excelente livro de George M. Taber, “O julgamento de Paris” já editado no Brasil pela Ed. Campus.

            O interessante é que os vinhos brancos norte-americanos tentavam imitar os brancos da Borgonha, criados a partir da casta Chardonnay, destacando-se por sua exuberante potência. Desde então os produtores de brancos da uva Chardonnay trataram de imitar o que fizeram Montelena e Chalone. Buscaram mudas francesas, clones adaptados às condições climáticas de regiões do Novo Mundo, estudaram novas formas de condução de vinhedos, tostaram barricas como os produtores borgonheses. O resultado visto é uma globalização dos aromas e sabores, num fenômeno que alguns jornalistas também têm chamado de “parkerização” do mundo do vinho, uma vez que este reconhecido crítico norte-americano - Robert Parker Jr. é mais influenciado pela potência que pela elegância dos rótulos.

            Para o crítico Matt Kramer, também americano, o debate sobre terroir, e o efeito da mão do homem lembra a história da Bela Adormecida. O príncipe leva a fama de ter acordado a moça com um beijo. Sem ele não teria acontecido nada!. Mas onde estão as Belas Adormecidas que despertam daquele eterno sonho e encantam seus súditos com a elegância e complexidade dos grandes vinhos?

            Sabemos que os americanos estão entre os maiores consumidores de vinho, ditando com os ingleses os preços e as tendências deste mundo. Nem de longe têm a exclusividade do bom gosto, bastando lembrar o fenômeno criado pelo filme Sideways (“Entre Umas e Outras”), num claro debate entre potência x elegância, alusão entre as marcantes Chardonnay e Merlot em relação a “frágil” Pinot Noir.

            O pessoal que se faz de príncipe, que são enólogos) ainda acredita que é o toque final que conta. Mas percebe-se pelos vinhos produzido, que não é apenas isto.  A beleza está no solo, que cria a uva dos grandes vinhos. O que conta é oterroir, que a vinificação cuidadosa consagra em um grande vinho.

Se você quer fugir da mesmice, só há uma regra: opte por vinhos que procurem resgatar o caráter de fruta e toques minerais em detrimento ao excesso de madeira. Certamente você irá descobrir e despertar Belas Adormecidas.