Uma cidadã do mundo

Na semana da mulher, a coluna presta sua homenagem entrevistando Maria Elvira Salles Ferreira. Desde pequena curiosa, enérgica e impulsiva, ela sempre lutou pela causa das mulheres. Foi a primeira mulher diretora da Associação Comercial de Minas e presidiu o PMDB-Mulher Nacional por cinco anos. Hoje, coordena mais de 70 mulheres que fazem parte das Caminhantes da Estrada Real.

Maria Elvira, você sempre carregou o estandarte da mulher. Passados esses anos todos de conscientização, ainda cabe levantar essa bandeira? O que te levou a se engajar nessa frente?
É a luta de uma vida inteira. Evoluímos, avançamos, mas estamos bem longe de ter uma posição justa na sociedade. A violência doméstica está aí, a falta de creches para mulheres trabalhadoras, os preconceitos na ascensão a cargos de poder, os salários discriminatórios. Engajei porque sou sensível à injustiça e sou guerreira por natureza.

As Caminhantes da Estrada Real é um movimento de “luluzinhas”?
Se o termo Luluzinha for depreciativo, estarão perdendo tempo. Viajamos todas juntas, temos mais liberdade, decidimos e pronto. Somos democráticas, ninguém manda em ninguém. É um movimento que busca fazer pessoas felizes. Convivendo, aprendendo, caminhando, conhecendo novos lugares e pessoas. É uma delícia. É um dos grupos mais alegres que se conhece. E adoramos um bom vinho.

Quais são as grades conquistas femininas nas ultimas décadas? Dentro da pirâmide social, esta conscientização foi abrangente?
Difícil listar conquistas, são várias. A lei Maria da Penha deve ser aqui registrada. As delegacias de atendimento a mulher. As mulheres que não conhecem seus direitos, e que são dependentes de homens a nível de sua própria  sobrevivência serão sempre sofredoras de consequências. A independência começa na cabeça e passa pelo bolso. O conselho que sempre dou: não dependa dos homens. O que vejo quase sempre são mulheres abandonadas, arrasadas pelo sofrimento, lutando por pendências do divórcio, algumas simplesmente “largadas”, sem direitos, lutando por pensão para os filhos, despreparadas para a vida.

E o feminismo exacerbado? Ele não instiga a uma reação contrária na sociedade?
O feminismo exarcebado é representado pela queima de sutiãs em praça publica nos EUA. Era para chamar a atenção. Assim como as mulheres vestidas de negro numa das últimas premiações de cinema: trazer os holofotes para o assedio sexual em Holywood. Um horror explícito, a humilhação de se submeter a coisas vexaminosas para seguir em frente na carreira de atriz. É claro que não era obrigatório, mas é uma chantagem sexual inaceitável por todas nós. Há momentos que vale exarcebar para mobilizar.

O machismo perdeu campo dentro dessa batalha?
O machismo é totalmente diverso do feminismo. O machismo discrimina, humilha, rebaixa, violenta. O feminismo busca valorizar a mulher, garantir oportunidades iguais para que as mulheres se desenvolvam integralmente. O machismo é destrutivo, egoísta, cruel. O feminismo é construtivo, conciliador, revolucionário. É natural que num mundo em transformação, o  machismo perca espaço. Tomara que ele morra!!