Paulo Navarro | sábado, 1º de dezembro de 2018

O cineasta marxista

Este talentoso amigo, João Vargas Penna, é mesmo um arremessador de rochas em aeronaves no céu. Não contente em ser cineasta neste Brasil, ainda pratica documentários! E comete documentários sobre um paisagista. Um não, “O” Paisagista oficial do Brasil, Roberto Burle Marx, atualmente no cine Belas Artes, esperamos! Brincadeiras à parte, a saga de Burle Marx merece até série na Netflix.

João, o Brasil caindo e você com cara de “Paisagem”? 

Um Retrato, quando cai 90º para a direita, vira Paisagem. Pena que essa porção de território que nosso olhar apreende está cada vez mais desmatada, caída. Precisamos defender as áreas livres nas cidades e as partes ainda intocadas da natureza, senão nos levam tudo! As secas e cheias enormes, cada vez mais frequentes, nos lembram que descuidamos dos lugares onde vivemos. A busca do lucro imediato de poucos sacrifica a água e o meio ambiente, que são, ou deviam ser, de todos.  

Mas essa “paisagem” é outra praia, e praia verde, verdade?  

É nelas que a gente se recompõe, ao entrar em contato com a natureza e com outras pessoas. Saímos da pressa e atribulações diárias para entrar em harmonia com os ciclos do sol, da lua, das plantas e dos animais. E isso pode acontecer numa volta pela pracinha da vizinhança, se ela existir. 

Por que Burle Marx? 

Porque ele melhora a vida de milhões de pessoas que, mesmo sem saber, penetram, diariamente, sua obra, ao passar pela Pampulha, pelo Aterro do Flamengo e avenida Atlântica, no Rio, pelo Ibirapuera, em São Paulo, ou pelos vários parques e jardins que ele criou, mundo afora.   

Burle Marx é o Niemeyer do paisagismo? 

Eles já tiveram belas obras em conjunto, o Ministério das Relações Exteriores, a Fazenda Tacaruna, a residência de Juscelino aqui em BH. Os jardins de Burle Marx fazem a mediação entre arquitetura e natureza, suas plantas amenizam os contornos da arquitetura moderna.  

A obra dele está garantida ou vive em perigo, como os museus brasileiros? 

Ela pode ser vista e vivida fora dos museus, em nossas cidades. Como toda obra viva, ela depende de cuidados. “Viver é muito perigoso.” 

No teu documentário, tem o maravilhoso pintor Burle Marx? 

Sim! Na escala doméstica, ele trabalhava com tintas. Nas composições monumentais, ele trabalhava com plantas, água, pedras e esculturas. 

E o chef cantor? 

Ele fazia uma batida de pitanga com nome musical: Pitangolomangotango! 

Com este sobrenome de “O Capital”, ele tinha o humor dos?Irmãos Marx? 

Ele só fechava o tempo quando via seus jardins mal cuidados. Fora isso, adorava uma piada e se definia como “Grouxo Marxista”.  

E a foto do cartaz do filme? 

Nos domingos, sua casa ficava cheia de amigos para o almoço. Depois de beber algumas, ele fazia uma volta pelo sítio para mostrar as maravilhas de sua coleção de plantas. Quando passava pelas alocácias, ele se escondia atrás das folhas enormes e dizia: “Vejam meu tapa-sexo!”.