O mineiro arquiteto mineiro

Foto: Jomar Bragança


O mineiro arquiteto mineiro

Foi preciso nem perguntar. O arquiteto Gustavo Penna confessou sem tortura ou delação premiada: "Sou mineiro e amo as montanhas; nossa arquitetura geológica, os edifícios da natureza". O Gustavo suave como pena, fala mansa e oceânica inteligência deixa sua marca na cidade e no mundo buscando, na arquitetura, a concisão que Drummond propunha na literatura: “escrever é cortar palavras”.


Gustavo, sinceramente, tirando a Pampulha, BH tem arquitetura com A maiúsculo?
Claro que sim. São inúmeras as publicações internacionais e brasileiras citando arquitetos de Minas. As maiores premiações mundiais reconhecem nossa produção. O que ocorre é que somos incapazes de valorizar nossa própria produção artítisca. Desde o Aleijadinho! Foi preciso um historiador francês, Germain Bazin, vir aqui e dizer que o maior artista das Américas estava em Minas.


O brasileiro tem medo de arquiteto ou é ignorância mesmo, estas cidades feias, sem identidade por todo o país?
Acho que temos um problema cultural em relação às nossas cidades. Juscelino Kubitschek, por ter valorizado a arquitetura, conseguiu que Belo horizonte figurasse no mapa mundial da cultura, até hoje. O Jaime Lerner, em Curitiba, fez uma grande transformação urbana. Todas as vezes em que se pretende fazer uma grande transformação no mundo, se recorre ao urbanismo e à arquitetura. Eu não sei por que isso não ocorre em Minas Gerais.


O que acha da frase, "Construa certo, contrate um arquiteto"?
Os arquitetos são muito mal compreendidos na sua função e na sua missão. Criou-se esse conceito equivocado de que fazer arquitetura é construir excepcionalmente, projetar palácios, grandes edifícios que são verdadeiros exercícios do desperdício. Quando vemos arquiteturas que atendem à população, como os espaços de convivência, as praças, os espaços populares, os museus, as escolas, vemos como eles extrapolam o uso cotidiano.


Arquitetura é revolução?
A arquitetura pode atrair olhares, criar usos e ser ferramenta de relacionamento humano. A arquitetura faz lugares para o homem, produz um bem essencial para a existência do planeta, por isso nunca foi tão necessária. Essa profissão não tem nada de supérflua, ela é fundamental.


Você é um poeta. Dá pra definir a arquitetura com um verso?
Arquitetura não é dentro, nem fora, é através.


O que você gostaria de projetar, pra ficar, em BH?
Um grande parque para as crianças. Um espaço que envolvesse as montanhas, grutas, matas, rios e cachoeiras; com tecnologia de vanguarda. Assim cada menino começaria a compreender o mundo através do que propõe seu próprio chão.


O que implodiria, com dinamite, em BH?
Muita coisa. Eu implodiria o anexo dos edifícios Sulamérica e Sulacap, na Afonso Pena, retornando à bela praça que existia ali. E aqueles prédios da Praça da Estação que impedem um lugar amplo, plano e belo. Dimensão cívica para reunir muita gente. Acho melhor parar por aqui.