O que vale mais: a qualidade ou um selo?

Quem acompanha os noticiários certamente ficou sabendo do fato lamentável que aconteceu com a minha colega de profissão, a chef Roberta Sudbrack, no último fim de semana, quando a Vigilância Sanitária apreendeu e jogou fora cerca de 160 kg de linguiças e queijos artesanais em seu estande no Rock in Rio. O motivo: segundo os fiscais, os produtos não poderiam ser comercializados por não possuírem o Selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF), chancela obrigatória para a venda de ingredientes de origem nacional. Vale lembrar que todos esses ingredientes do estande de Roberta, cujo talento dispensa comentários, foram fabricados por pequenos produtores da cidade de Gravatá, em Pernambuco.

O episódio escancara uma situação que há muito me incomoda, e acredito que não apenas a mim, mas vários profissionais de gastronomia deste país: as enormes barreiras que os pequenos produtores, seja da agricultura familiar ou de produtos artesanais, precisam enfrentar para se manterem no mercado. Muitos, senão todos, deparam-se com uma burocracia gigantesca para conseguirem a certificação daquilo que produzem. E muitos não têm todos os selos, o que em hipótese alguma desqualifica os alimentos que comercializam. A grande maioria tem altíssima qualidade.

É preciso que as autoridades levem em conta o valor e a importância simbólica do trabalho artesanal, até mesmo para a cultura gastronômica do país. Na Europa, por exemplo, esse tipo de produção é motivo de orgulho. É um trabalho de vida inteira. No caso de Roberta, só para constar, ela trabalha com os mesmos produtores há 20 anos.Ao tomar conhecimento do caso, li um artigo do arquiteto e urbanista Washington Fajardo, que Roberta compartilhou em seu facebook, cujo texto vai de encontro ao que penso deste acontecimento.  “O que jogaram no lixo não foram os insumos da chef Sudbrack, mas um modo de desenvolvimento, marcas brasileiras feitas com nossas miudezas, mas que formam um sabor inesquecível.”

Que fique bem claro: não sou contra a fiscalização, mas a forma como ela aconteceu, inclusive com truculência por parte dos fiscais, segundo relato da chef, é que deve ser repensada. Os nossos saberes e tradições precisam ser respeitados, uma vez que transformam-se em bens valiosos, elementos da nossa identidade cultural. Portanto, leis homogêneas, que desconsideram as particularidades do nosso setor de produção artesanal, são incapazes de mensurar o trabalho sério e aguerrido dos profissionais que se encaixam nesta modalidade.

Finalizo este texto com a seguinte reflexão: o prejuízo de Roberta, de acordo com reportagens veiculadas na mídia, foi orçado em R$ 400 mil. Do total, R$ 200 mil foram pela compra dos produtos apreendidos e a outra metade seria do lucro arrecadado nos sete dias de evento. O valor é grande? Disso não há dúvidas! Mas o maior prejuízo, certamente o mais intangível e incalculável, é perceber o quanto nossos órgãos públicos, que tanto propagam o valor imaterial da gastronomia brasileira para o mundo, não sabem reconhecer os soldados que estão por trás de todos os encantos que ela possui: os nossos pequenos produtores. Será que vale mais a qualidade ou um selo? Fica a pergunta.